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Desprezo hipócrita pelos utentes, pelos cidadãos e pela vida humana

Sim, tudo isso mostra a inacreditável resposta da REFER à morte de uma pessoa atropelada por um comboio na estação do Entrocamento e ao comunicado da Câmara Municipal do Entrocamento que se seguiu e que denuncia, com toda a razão, “a omissão criminosa de medidas que garantam a segurança de utentes e trabalhadores”, segundo noticiam hoje diversos órgãos de comunicação social portugueses (“REFER afasta responsabilidades na morte de idoso na estação do Entroncamento”, no Público, “Autarquia do Entroncamento «indignada» com explicações da Refer”, na TSF). A REFER limita-se a dizer que as “condições de segurança no local estavam asseguradas e que foram feitos avisos sobre a aproximação de um comboio Alfa que não pára na estação”, avisos sonoros, e diz isto sabendo que a vítima usava um aparelho auditivo. Não há, segundo noticia a comunição social, a mais mínima alusão por parte da empresa gestora à necessidade de diversificar as medidas de segurança ou o tipo de avisos (porque não há também sinais luminosos, como nas passagens de nível, porque não há barreiras a fecharem-se, porque não há, como reclama a autarquia, passagens desniveladas para os peões que têm obrigatoriamente que atravessar as linhas?), o que justifica a indignação do presidente da Câmara do Entrocamento por esta resposta.

Então as pessoas com deficiências auditivas não são utentes e cidadãos como os outros? Não merecem medidas de segurança feitas a pensar nas suas dificuldades? Desconheço se a legislação, como sugere o comunicado da REFER, só obriga a fazer avisos sonoros. Se assim for, é uma legislação claramente deficiente e tem que ser urgentemente modificada. Parece-me impensável que não existam normas na União Europeia que obriguem a adoptar outro género de medidas e a construir passagens desniveladas, aliás, desconfio que essas normas devem existir algures, e se não existirem, deviam ser feitas.

Mas, para além da legislação, existe a ética, a “responsabilidade social empresarial”. Por isso, procuro no site da REFER alguma coisa do género, e encontro um lindo documento intitulado Política de Responsabilidade Social (data: Março de 2010) onde se lê o seguinte, que sublinho a negrito:

A REFER reconhece a sua responsabilidade na geração de valor para a comunidade onde se insere e está comprometida em conduzir a sua actividade de uma forma ética, social e ambientalmente responsável, assumindo compromissos com as diversas partes interessadas.
(…)
COMPROMISSOS COM A COMUNIDADE
Contribuímos para a promoção de um modo de transporte seguro e ambientalmente mais eficiente, controlamos o potencial impacto negativo da nossa actividade nas populações, criamos soluções que facilitam a mobilidade, promovemos a integração equilibrada da infra-estrutura ferroviária nos espaços urbanos, educamos e sensibilizamos para a segurança e investimos continuamente numa rede ferroviária mais segura (…)
COMPROMISSOS COM A COMUNIDADE E A CULTURA FERROVIÁRIA
Apoiamos o desenvolvimento de iniciativas que promovam a comunidade ferroviária, a sua coesão e protecção (…)

Quanta hipocrisia!

Economicismo na escolha de cursos

O Público trazia ontem, sob o título Estudantes têm cada vez mais dificuldades de base a Matemática, mais um desses artigos sobre a degradação do ensino em geral e do ensino universitário em particular e sobre a falta de preparação dos estudantes que saem do secundário, cheio dos lugares comuns do costume (facilitismo, mau comportamento, não aprenderam a pensar nem a ser responsáveis, etc.). O mais interessante de toda a reportagem é a seguinte reflexão de uma professora universitária:

Ana Isabel Filipe, do departamento de Matemática e Aplicações da Escola de Ciências Universidade do Minho, que tem dado cadeiras de Álgebra Linear, Análise Matemática e Cálculo em cursos na área das engenharias, faz uma radiografia: “Os alunos estão dentro de cursos que não gostam. Procuram um curso com empregabilidade e ocupam a vaga de quem até tinha uma nota menor mas tinha gosto. Estão todos fora do sítio”, explica a professora de 55 anos que dá aulas desde 1978.

O economicismo que cada vez mais domina os comportamentos individuais e colectivos, o reflexo do neoliberalismo dominante nas escolhas individuais e nos projectos de vida pessoais, levam a este drama educativo. Se o critério principal é fazer dinheiro a todo o custo, quanto mais melhor, mesmo renunciando àquilo de que se gosta e que até se poderia conseguir, o ensino passa a ser apenas mais uma corrida de obstáculos que é preciso ultrapassar para atingir o salário desejado. O prazer e o entusiasmo por aquilo que se faz na vida deixaram de ser motivações importantes. Não será esta a causa de todo o resto? Porque a “ideia romântica de que a aprendizagem tem de dar prazer”, criticada na mesma reportagem por outro docente (mais um dos lugares comuns do costume), no pode ser substituída pela ideia economicista de que o que interessa é ganhar dinheiro com prazer ou sem ele. O trabalho bem feito exige prazer e entusiasmo, e sem eles os “hábitos de trabalho” e o “espírito de sacrifício” não fazem sentido. Se a motivação for apenas o dinheiro, o sacrifício e o trabalho irão apenas até onde for necessário para convencer ou enganar os outros. Só com prazer e entusiasmo é que se pode atingir a verdadeira qualidade, do ensino, do trabalho e de vida.

Hay que vivir… que treinta años no son nada

Me viene hoy a la memoria, no sé por qué, el comiento de esta canción, Hay que vivir, que tiene más de treinta años y parece haber sido escrita para la crisis actual:

Habrá que hacernos a la idea
que sube la marea
y esto no da mas de sí.

Habrá que darnos por vencidos
y echarnos al camino
que no hay nortes por aquí.

Al sueño americano
se le han ido las manos
y ya no tiene nada que ofrecer;
sólo esperar y ver si cede
la gran bola de nieve
que se levanta por doquier.

Parece que en treinta años no hemos aprendido nada y seguimos cometiendo los mismos errores, una y otra vez.