Economicismo na escolha de cursos

O Público trazia ontem, sob o título Estudantes têm cada vez mais dificuldades de base a Matemática, mais um desses artigos sobre a degradação do ensino em geral e do ensino universitário em particular e sobre a falta de preparação dos estudantes que saem do secundário, cheio dos lugares comuns do costume (facilitismo, mau comportamento, não aprenderam a pensar nem a ser responsáveis, etc.). O mais interessante de toda a reportagem é a seguinte reflexão de uma professora universitária:

Ana Isabel Filipe, do departamento de Matemática e Aplicações da Escola de Ciências Universidade do Minho, que tem dado cadeiras de Álgebra Linear, Análise Matemática e Cálculo em cursos na área das engenharias, faz uma radiografia: “Os alunos estão dentro de cursos que não gostam. Procuram um curso com empregabilidade e ocupam a vaga de quem até tinha uma nota menor mas tinha gosto. Estão todos fora do sítio”, explica a professora de 55 anos que dá aulas desde 1978.

O economicismo que cada vez mais domina os comportamentos individuais e colectivos, o reflexo do neoliberalismo dominante nas escolhas individuais e nos projectos de vida pessoais, levam a este drama educativo. Se o critério principal é fazer dinheiro a todo o custo, quanto mais melhor, mesmo renunciando àquilo de que se gosta e que até se poderia conseguir, o ensino passa a ser apenas mais uma corrida de obstáculos que é preciso ultrapassar para atingir o salário desejado. O prazer e o entusiasmo por aquilo que se faz na vida deixaram de ser motivações importantes. Não será esta a causa de todo o resto? Porque a “ideia romântica de que a aprendizagem tem de dar prazer”, criticada na mesma reportagem por outro docente (mais um dos lugares comuns do costume), no pode ser substituída pela ideia economicista de que o que interessa é ganhar dinheiro com prazer ou sem ele. O trabalho bem feito exige prazer e entusiasmo, e sem eles os “hábitos de trabalho” e o “espírito de sacrifício” não fazem sentido. Se a motivação for apenas o dinheiro, o sacrifício e o trabalho irão apenas até onde for necessário para convencer ou enganar os outros. Só com prazer e entusiasmo é que se pode atingir a verdadeira qualidade, do ensino, do trabalho e de vida.

0 Respuestas a “Economicismo na escolha de cursos”


  • Ningún Comentario

Añade un Comentario

*
To prove you're a person (not a spam script), type the security word shown in the picture. Click on the picture to hear an audio file of the word.
Click to hear an audio file of the anti-spam word